Carta Branca a Mariana Gaivão no Doclisboa

15 Outubro 2019

No âmbito da celebração do seu 20º aniversário, a Agência apresenta a “Carta Branca aos Realizadores Portugueses” que, no espaço de um ano, irá percorrer os diversos festivais de cinema com sessões de celebração da cinematografia nacional do século XXI.

O nono acto da iniciativa “Carta Branca aos Realizadores Portugueses” terá lugar em Lisboa, no âmbito do Doclisboa - Festival Internacional de Cinema, evento que decorrerá de 17 a 27 de Outubro. O festival desafiou a realizadora Mariana Gaivão para programar e apresentar uma sessão elaborada por si. 

Mariana Gaivão propõe para a sua Carta Branca uma sessão composta por 4 curtas-metragens: Jaime, de António Reis, Aussteig, de Jorge Quintela, Acorda, Leviatã de Carlos Conceição e Altas Cidades de Ossadas, de João Salaviza. Os filmes serão apresentados no próximo dia 19 de Outubro, às 21h, na Sala 2 do Cinema São Jorge.

Mariana Gaivão elucida-nos sobre o seu processo de reflexão e programação da sessão:
Não sendo eu, por natureza, alguém com uma relação antológica com o Cinema, nem de fácil discurso público ou sobre o trabalho do Outro, assumo a bonita angústia que foi responder a este lindíssimo convite do DocLisboa, para programar mais uma sessão de celebração dos 20 anos da Agência. Num primeiro fôlego, pesou-me a impossibilidade de representar todos os que admirava, pessoal e profissionalmente, e às formas tão distintamente cruciais com que haviam marcado o Cinema português dos últimos anos. “As I was moving ahead occasionally I saw brief glimpses of Beauty”, de Mekas, foi a expressão que me surgiu ao atravessar todos os filmes. Os 20 anos da Agência são uma celebração viva destes vislumbres, pequenas cartas filmadas em segredo e passadas como notas na aula por entre as nossas mãos abertas, numa resistência teimosa e cúmplice. Percorri-as em busca deste programa, sempre incontornável e injustamente finito, que dialogasse com a natureza do próprio Festival. Para o fazer permiti-me guiar por uma questão transversal a toda essa procura, uma que me habita e inquieta permanentemente ao filmar: como manter livre o gesto com que enquadro, como permitir que o Mundo o invada, nos encontre no nosso processo, e que de alguma forma lhe escape, simultaneamente anterior e posterior ao nosso desejo como realizadores? Em busca de um diálogo possível, cheguei a estes quatro filmes que, na liberdade consciente do seu gesto, abrem espaço ao mais belo encontro: o Cinema que nos devolve (a)o Mundo. Não fecham de todo em si essa natureza, transversal a tantos outros, mas são possíveis aberturas a esse caminho.
JAIME, de António Reis, traz-nos brutos fragmentos deste desejo de encontro, rasgados por silêncio e luz. Sobre o mesmo, diria: “… acho injusto que não se considere Jaime um filme de fundo, um filme de ficção. Não é uma história, mas é um filme onde tudo tem importância. Até o seu próprio aspecto descascado, sem preciosismo. Parecia-me um atentado à condução de um trabalho deste género apoiá-lo em preciosismos. Não quero desculpar a falta de brilho do filme, a falta de retoques, mas houve uma espécie de pudor que comandou a própria concepção estética.”
AUSSTIEG, de Jorge Quintela, um primeiro e curto gesto de total independência, um único quadro numa pequena viagem de comboio, no qual aceito ir, com a sensação familiar de o mesmo ter espaço para a minha presença.
ACORDA LEVIATÃ, de Carlos Conceição, é uma viagem permeada pelos códigos de género que fascinam o realizador, mas onde o senti ensaiar uma outra amplitude de olhar, uma narrativa ligada em primeiro grau à sua câmara, e encontrada ao longo do próprio projecto.
Até, por fim, ALTAS CIDADES DE OSSADAS, de João Salaviza, a febril vigília noturna de Karlon, segredada no negro da noite tropical por entre o qual as suas rimas ecoam. Um filme que parece chegar como uma subtil ruptura ao cinema do João, um respiro mais íntimo e de arquitectura de filmagem mais leve, com a qual se pode mover sem afugentar os fantasmas em redor.
E foi isto que procurei celebrar. Não como apologia exclusiva de criação com meios reduzidos, todas as estruturas de trabalho são válidas e cada filme chamará pela sua, mas porque me comovem os passos que damos para a liberdade que nos chama, a cada um de nós, de forma totalmente distinta, a pertencermos mais ao Mundo.

A celebração do 20º aniversário da Agência continuará no DocLisboa com uma festa no Bar A Barraca, no dia 19 a partir das 23h. A realizadora Mariana Gaivão e Miguel Dias, director da Agência, serão os Djs de uma noite sonora que começará em Liverpool e acabará frenética pelas ruas de Bogotá, Lagos e São Paulo.

As acções seguintes da iniciativa “Carta Branca aos Realizadores Portugueses” terão lugar no Vista Curta- Festival de Curtas de Viseu (Regina Pessoa), Temps D’Images Lisboa (Paulo Furtado), Inshadow Lisbon ScreenDance Festival (Rui Xavier), Cinanima Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho (Vasco Sá e David Doutel), Caminhos do Cinema Português (João Salaviza), Porto/Post/Doc (Mónica Santos e Alice Guimarães), Monstra - Festival de Animação de Lisboa (José Miguel Ribeiro), IndieLisboa Festival Internacional de Cinema (Gabriel Abrantes), Encontros de Cinema de Viana de Castelo (Manuel Mozos), Fantasporto Festival Internacional de Cinema Fantástico do Porto (José Magro) e Leiria Film Festival (Edgar Pêra). 

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