Carta Branca a Claudia Varejão no QueerLisboa e QueerPorto

17 Setembro 2019

No âmbito da celebração do seu 20º aniversário, a Agência apresenta a “Carta Branca aos Realizadores Portugueses” que, no espaço de um ano, irá percorrer os diversos festivais de cinema com sessões de celebração da cinematografia nacional do século XXI.

A sexta edição da iniciativa “Carta Branca aos Realizadores Portugueses” terá lugar na capital portuguesa, no âmbito do QueerLisboa, evento que decorrerá 20 a 28 de Setembro. O festival desafiou a realizadora Cláudia Varejão para programar e apresentar uma sessão elaborada por si.  Esta também fará parte da programação do Queer Porto, no Teatro Rivoli no Porto, a realizar-se entre os dias 16 e 20 de Outubro.

Cláudia Varejão propõe para a sua Carta Branca uma sessão composta por 5 curtas-metragens: "Paisagem" da realizadora Renata Sancho; "Um Campo de Aviação" de Joana Pimenta; "A Torre" de Salomé Lamas, "Insert" de Filipa César e Marco Martins, e "Retrato de Inverno de uma Paisagem Ardida", de Inês Sapeta Dias.

Os filmes serão apresentados no próximo dia 28 de Setembro, às 17h, na Cinemateca Portuguesa, e exibidos nos seus formatos originais, sendo que o primeiro, "Paisagem", será projectado em 35mm e "Retrato de Inverno de uma Paisagem Ardida", em 16mm.

Cláudia Varejão elucida-nos sobre o seu processo de reflexão e programação da sessão: "Uma carta branca é em muito semelhante ao início do processo de realização de um filme: avançamos sobre possibilidades incalculáveis e, num gesto mais intuitivo do que pensante, moldamos o tempo e o espaço diante de nós. Assim parto para esta sessão, sem ao certo conhecer a sua forma final.

O convite da Agência da Curta Metragem e do Festival Queer, a quem muito agradeço a honra e a confiança, demarcou, de alguma forma, uma vasta área onde me pude mover e reflectir. Atravessei 20 anos de curtas sem uma intenção definida à priori. Mas celebrar duas décadas de filmes é, necessariamente, um convite a observar a história recente do cinema português. E como cada ofício só existe por efeito dos Mestres, foi para eles que me propus olhar. Mas com um dado acrescido: nas últimas décadas o território que até então pertencia, numa primeira vista, a eles, aos realizadores, passou a ser também partilhado pela presença delas, mulheres cineastas, que foram surgindo com identidades formais e narrativas muito próprias e que permaneceram no terreno com uma obra em ascensão e que hoje preenche, cada vez menos timidamente, as salas de cinema e festivais em todo o mundo. 

Certamente serei injusta na exclusão de tantos filmes que poderiam compor esta sessão, pois são muitas as realizadoras que ao longo dos anos contribuíram para que cada uma de nós pudesse filmar. Ainda que - e serve esta ressalva para desinquietar e convocar as novas gerações de mulheres a investir na realização - os filmes realizados por homens ou por mulheres apresente números extremamente desiguais e o pouco aprofundamento da cinematografia em torno de minorias sexuais seja sintomático do longo caminho que, dentro e fora do sector cinematográfico, ainda temos para percorrer. Encaro esta brecha como um estimulo ao trabalho e desejo que nas futuras celebrações fílmicas possamos ter um discurso cada vez mais inclusivo.

A sessão que aqui apresento é composta por cinco curtas-metragens que, para além de serem obras assinadas por realizadoras, exploram, para mim, um olhar não colonizado por conceitos e formas já exploradas. Ou como Laura Mulvey assinalaria, são filmes construídos por uma curiosidade e um desejo compulsivo de ver e saber, de investigar algo secreto; uma estética da curiosidade. Em todos os filmes percorremos possibilidades de olhar e de criar linguagem em torno do desejo, da ausência ou do espaço primordial da terra, rompendo com um discurso mais narrativo ou assente no consequencialismo. Mas é no tempo e no espaço com que cada realizadora se aproxima das paisagens que poderemos encontrar um fio condutor, tão livre, e tão cheio de significados, como esta carta branca."

A iniciativa Carta Branca aos Realizadores foi pensada como uma mostra de cinema português de processo invertido convocando as pessoas que pensam cinema na sua origem – os criadores - para se colocarem no papel do programador e fazer uma revisitação ao cinema nacional numa sessão de curtas-metragens. A nomeação de cada uma das personalidades é da responsabilidade do festival anfitrião, e o cineasta é desafiado a apresentar um cinema português crítico e inventivo narrado pelo próprio num olhar para os seus pares, onde haverá espaço para refletir sobre as mudanças significativas que foram operadas no cinema português no novo século.

As acções seguintes desta iniciativa terão lugar no Close-Up Observatório de Cinema de Famalicão com Pedro Serrazina, seguindo-se o Doclisboa Festival Internacional de Cinema (com Mariana Gaivão), Vista Curta- Festival de Curtas de Viseu (Regina Pessoa), Temps D’Images Lisboa (Paulo Furtado), Inshadow Lisbon ScreenDance Festival (Rui Xavier), Cinanima Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho (Vasco Sá e David Doutel), Caminhos do Cinema Português (João Salaviza), Porto/Post/Doc (Mónica Santos e Alice Guimarães), Monstra - Festival de Animação de Lisboa (José Miguel Ribeiro), Cortex Festival de Curtas-Metragens de Sintra (Patrick Mendes), IndieLisboa Festival Internacional de Cinema (Gabriel Abrantes), Encontros de Cinema de Viana de Castelo (Manuel Mozos), Fantasporto Festival Internacional de Cinema Fantástico do Porto (José Magro) e Leiria Film Festival (Edgar Pêra).

Alto Patrocínio

Apoio

Membro fundador