Carta Branca a João Nicolau no Curtas Vila do Conde

06 Julho 2019

No âmbito da celebração do seu 20º aniversário, a Agência apresenta a “Carta Branca aos Realizadores Portugueses” que, no espaço de um ano, irá percorrer os diversos festivais de cinema com sessões de celebração da cinematografia nacional do século XXI.

A Agência apresenta, no território português de norte a sul, um programa alargado de cinema intitulado “Carta Branca aos Realizadores Portugueses” que, no espaço de um ano - até Maio de 2020 - irá percorrer 20 festivais de cinema portugueses com sessões de celebração da cinematografia nacional do século XXI.

A nomeação de cada uma das personalidades é da responsabilidade do festival anfitrião. No terceiro acto desta iniciativa, o Curtas Vila do Conde convidou o realizador João Nicolau, que foi desafiado a apresentar um cinema português crítico e inventivo num olhar para os seus pares.

Os títulos escolhidos pelo cineasta refletem 4 gerações de realizadores portugueses, e a sessão compõem-se de "Painéis de São Vicente, Visão Poética" de Manoel de Oliveira; "Cântico das Criaturas" de Miguel Gomes; "I Know You Can Hear Me" de Miguel Fonseca e "A Glória de Fazer Cinema em Portugal" de Manuel Mozos.

João Nicolau escreve no seu texto de apresentação: <<O prazer que sinto em apresentar esta sessão só tem paralelo na gratidão que devo à Agência da Curta Metragem e ao seu pioneiro e dedicado trabalho na divulgação dos filmes portugueses nos mais variados territórios - da escola primária no interior do país ao festival especializado na mais longínqua das paragens. A Agência faz 20 anos, é uma moça viçosa, uma longa e desinquietada vida é o que lhe desejo.

O convite que me foi endereçado para desenhar uma sessão escondia uma armadilha lá dentro: não podia escolher filmes meus. Ora eu só me sinto autorizado – literalmente - a apresentar precisamente esses (e são poucos).  Poder escolher entre todas as curtas-metragens portuguesas nascidas no séc. XXI é um presente demasiado generoso, uma pescaria épica. Um regabofe, em suma. Não há, não conheço, outro princípio que não o do prazer para presidir a tamanha libação.  As linhas que a seguir escreverei não serão certamente mais verdadeiras que a anterior.

Todos os filmes que aqui vos convido a ver são convites a fazer precisamente isso ao mesmo tempo que os próprios filmes o fazem. Desconfio (imagino) que Manoel de Oliveira nos ensinou a olhar (deliro) precisamente porque aprendia a olhar a cada plano que se propunha fazer (especulo). Nesse sentido, “Painéis de São Vicente de Fora – Visão Poética” não é um filme sobre uma pintura; é um filme, o mais humorado dos quatro que aqui trago, sobre o cinema.  A citação que encima este pequeno texto é uma nada inocente invectiva e a repetição massiva dessa invectiva nada inocente é.

O segundo filme, “Cântico das Criaturas”, precede cronologicamente o primeiro e partilha com ele a figura do santo como personagem principal. Mais relevante será notar que, pisando desfechos formais radicalmente diferentes, ambos de um fulgor intenso, os dois filmes partilham também a mesma conclusão moral. Tornou-se-me por isso irresistível pô-los a dialogar. Tal como se me tornou irresístivel perverter minimamente a armadilha que antes referi: eu tive a honra e o gozo de colaborar, enquanto montador e actor, na feitura deste filme. O espectador que me perdoe a vaidade que só me fica mal.

No terceiro filme o santo está já ausente. John Rambo não está nas imagens de “First Blood” que compõem “I know you can hear me”.  Na história que inventei para sequenciar esta sessão, este filme é a figuração possível do que resta após as conclusões morais dos dois filmes anteriores. Não há homens, já quase não há animais, e o nosso olhar, tal como o do filme, terá que adaptar-se ao vazio que sustenta uma ausência pesada e intrigante. Perante uma sensação tão terminal, como um amor dolorosamente belo, só nos resta zerar a máquina e atirar-nos de cabeça à “Glória de fazer em cinema em Portugal”. Aqui ou em qualquer parte do mundo. Ainda bem que este filme é uma produção “da casa”, é sintomático. Ainda bem que irá passar noutra sessão deste festival: outros saberão falar melhor dele que eu. >>

A iniciativa Carta Branca aos Realizadores foi pensada como uma mostra de cinema português de processo invertido convocando as pessoas que pensam cinema na sua origem – os criadores - para se colocarem no papel do programador e fazer uma revisitação ao cinema nacional numa sessão de curtas-metragens. A nomeação de cada uma das personalidades é da responsabilidade do festival anfitrião, e o cineasta é desafiado a apresentar um cinema português crítico e inventivo narrado pelo próprio num olhar para os seus pares, onde haverá espaço para refletir sobre as mudanças significativas que foram operadas no cinema português no novo século.

As acções seguintes desta iniciativa terão lugar no MDOC - Festival Internacional de Documentário de Melgaço que convidou Eduardo Brito, seguindo-se o MotelX - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa (João Pedro Rodrigues), Queer Lisboa Festival Internacional de Cinema (Cláudia Varejão), Close-Up Observatório de Cinema de Famalicão (Pedro Serrazina), Doclisboa Festival Internacional de Cinema (Mariana Gaivão), Vista Curta- Festival de Curtas de Viseu (Regina Pessoa), Temps D’Images Lisboa (Paulo Furtado), Inshadow Lisbon ScreenDance Festival (Rui Xavier), Cinanima Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho (Vasco Sá e David Doutel), Caminhos do Cinema Português (João Salaviza), Porto/Post/Doc (Mónica Santos e Alice Guimarães), Monstra - Festival de Animação de Lisboa (José Miguel Ribeiro), Cortex Festival de Curtas-Metragens de Sintra (Patrick Mendes), IndieLisboa Festival Internacional de Cinema (Gabriel Abrantes), Encontros de Cinema de Viana de Castelo (Manuel Mozos), Fantasporto Festival Internacional de Cinema Fantástico do Porto (José Magro) e Leiria Film Festival (Edgar Pêra).

 

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